BRASÍ LIA

O PLANO URBANÍSTICO: LUCIO COSTA

O projeto vencedor, dentre os 66 apresentados, foi o de Lucio Costa, que nasceu de um gesto primário de quem assinala um lugar promovendo o encontro de dois eixos cartesianos. Sua vitória no concurso deveu-se a seu inovador conceito urbanís-tico e à fantástica descrição poética da nova cidade sinteti-zada em seu estudo. Sua concepção buscava “integrar o triângulo equilátero, vinculado à arquitetura desde a mais remota antiguidade com a técnica oriental milenar”, passando por modelos urbanos como os de Piccadily Circus, Times Square, Campos Elísios, as pequenas ruas de Veneza, “tudo isso associado à técnica paisagística de parques e jardins”. Essas referên-cias denotam a preocupação em integrar soluções espaciais historicamente legítimas, mas revisadas com a tecnologia contemporânea em um esforço de atualização do conhecimento acumulado.

O plano urbanístico de Lucio Costa inclui um texto de excepcional simplicidade: o “informe do Plano Piloto”, composto de uma planta geral e uma série de pers-pectivas e pequenos esboços. O ponto de partida era o caráter da cidade, que não deveria ser concebida somente como “simples organismo capaz de cumprir satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais pró-prias de uma cidade moderna qualquer, não haveria de ser apenas uma ‘urbs’, mas como ‘civitas’, possui-dora dos atributos inerentes a uma capital”.

Assim Lucio Costa descreveu a concepção urbanística de Brasília:

“Um projeto original, nativo e brasileiro, citando como fontes de inspiração a pureza da distante cidade Brasileira de Diamantina, as perspectivas de Paris, os gramados ingleses de sua infância, os altiplanos da China e as avenidas e pontes de Nova<   York.”
  

Lucio Costa

Lucio Costa planejou uma Brasília moderna, olhando para o futuro, mas ao mesmo tempo “bucólica e urba-na, lírica e funcional”. Em seu plano urbanístico, elimi-nou os cruzamentos para que o tráfego dos carros fluísse livremente e concebeu os edifícios residen-ciais com um traçado uniforme, sobre pilotis, para não impedir a circulação das pessoas. Uma cidade com amplas avenidas e vasto horizonte, valorizando o paisagismo e os jardins.

O projeto de Lucio Costa partiu do traço de dois eixos que se cruzam em um ângulo reto, como uma cruz. Os dois eixos foram chamados de Eixo Rodoviário e Eixo Monu-mental. O Eixo Rodoviário, que corta as áreas residenciais do Plano Piloto, foi levemente arqueado para dar à cruz a forma de um avião, o que permitiu o nascimento das “asas” Sul e Norte. Enquanto o Eixo Monumental, com 16 quilô-metros, seria destinado aos edifícios oficiais e aos monu-mentos, o Eixo Rodoviário foi dividido do seguinte modo: do lado leste, os edifícios públicos e o palácio do Governo Federal; no centro, a estação rodoviária e a torre de tevê; e do lado oeste, os edi-fícios do Governo do Distrito Federal.

De acordo com os editores do livro “Brasília - 1956 a 2006”, Eduard Rodrigues i Vilauesca e Cibele Vieira Figuera, o Plano Piloto de Brasília pode ser descrito a partir de diferentes conceitos urbanísticos:

  • a cidade monumental, organizada a partir de dois eixos principais que definem uma estrutura viária simétrica e em cujo desenho se distinguem claramente os espaços de representação do poder, seja este nacional ou local.
  • a cidade viária, estruturada por uma trama regular e hierárquica de vias especializadas de circulação que se cruzam em diferentes níveis e estão articuladas por nós.
  • a cidade funcional, onde cada zona tem uma função e, segundo essa função, recebe um tratamento ou outro (residencial, comercial, industrial, de hotelaria, cultural etc.).
  • a cidade-parque, caracterizada pelo predomínio de amplas zonas verdes e onde os edifícios não seguem a divisão tradicional de terrenos.
  • a cidade radial, organizada em grandes quadras em que impera a separação de calçadas e automóveis.
  • a cidade central, que prevê sua ampliação por meio de novos núcleos, as cidades-satélites